A Guerra do Peloponeso e a “Armadilha de Tucídides” aplicada ao século XXI
O artigo examina a Guerra do Peloponeso como marco estrutural das Relações Internacionais e analisa como a “Armadilha de Tucídides” ajuda a compreender a rivalidade estratégica entre Estados Unidos e China no século XXI.
2/26/20264 min ler
Armadilha de Tucídides
Um dos pontos centrais para podermos entender as relações internacionais, é com certeza a Guerra do Peloponeso. Ela traz pontos centrais sobre equilíbrio de poder, dilema da segurança, auxilia na compreensão das grandes tensões da geopolítica e demonstra como fenômenos passados podem se repetir na atualidade.
A Guerra do Peloponeso (431– 404 a.C.) permanece como um dos episódios mais emblemáticos da história antiga, não apenas pela sua dimensão militar, mas pelo seu significado estrutural na teoria das Relações Internacionais. O conflito entre Atenas e Esparta não foi apenas uma guerra entre cidades-Estado gregas, mas sim foi o choque entre uma potência em ascensão e uma potência estabelecida, em um sistema internacional sem autoridade superior capaz de mediar rivalidades. Séculos depois, o historiador Tucídides sintetizaria a causa profunda do conflito em uma frase que atravessou o tempo: “Foi o crescimento do poder de Atenas e o temor que isso provocou em Esparta que tornou a guerra inevitável.”
Após as Guerras Médicas contra o Império Persa, Atenas emergiu fortalecida política, econômica e militarmente. A Liga de Delos, criada inicialmente como uma aliança defensiva contra ameaças externas, transformou-se gradualmente em um instrumento do imperialismo ateniense. A cidade acumulava tributos, expandia sua influência marítima e consolidava um modelo político democrático que contrastava com o sistema oligárquico e militarista de Esparta. Enquanto Atenas representava dinamismo comercial, poder naval e expansão cultural, Esparta simbolizava estabilidade terrestre, disciplina militar e conservadorismo político.
Esse antagonismo não era apenas ideológico, mas estrutural. O sistema grego era multipolar, composto por diversas pólis independentes, mas o crescimento acelerado de Atenas alterava o equilíbrio de poder. Esparta, líder da Liga do Peloponeso, passou a enxergar a ascensão ateniense como ameaça direta à sua segurança e posição como potência. Em um ambiente anárquico, ou seja, sem uma autoridade supranacional capaz de impor regras, a percepção de vulnerabilidade gera respostas preventivas. A lógica da segurança transforma-se em lógica de competição. Assim, a guerra foi fruto do acúmulo de desconfiança e insegurança, alianças rivais, disputas econômicas e receios estratégicos.
O conflito prolongou-se por quase três décadas, alternando fases de confrontos diretos, guerras indiretas e alianças oportunistas, inclusive com a Pérsia, antiga inimiga comum dos dois. Atenas, apesar de sua superioridade naval, enfrentou crises internas, peste e desgaste financeiro. Esparta, adaptando-se gradualmente ao cenário marítimo, recebeu apoio persa para financiar sua frota. Ao final, Atenas foi derrotada, sua democracia temporariamente substituída por um regime oligárquico, e o equilíbrio grego jamais retornou ao estágio anterior. A guerra enfraqueceu todo o sistema helênico, abrindo espaço, décadas depois, para a ascensão da Macedônia sob Filipe II e Alexandre.
É desse episódio que emerge o conceito moderno da chamada “Armadilha de Tucídides”: a tendência histórica ao conflito quando uma potência emergente ameaça deslocar uma potência dominante. Isso também é, quando uma potência resolve atacar outra, que ameaça sua posição como tal, como modo de defender-se preventivamente de um possível ataque. Esse cenário cria um estado crítico de insegurança onde o medo da perda de hegemonia e o receio de uma agressão futura podem levar a potências a uma guerra catastrófica, como modo de defender-se preventivamente de um possível ataque.
O termo (“Armadilha de Tucídides”) foi popularizado no século XXI para descrever a rivalidade entre Estados Unidos e China. A analogia é evidente: uma potência estabelecida, detentora de supremacia militar, financeira e tecnológica, observa o crescimento acelerado de uma rival que expande sua influência econômica, moderniza suas forças armadas, e projeta poder regional e internacional.
No contexto contemporâneo, a China apresenta taxas de crescimento econômico que a colocaram como segunda maior economia do mundo, investe em tecnologia estratégica, amplia sua presença naval no Indo-Pacífico e propõe iniciativas como a Nova Rota da Seda para expandir sua influência global. Os Estados Unidos, por sua vez, mantêm alianças consolidadas, superioridade militar e centralidade no sistema financeiro internacional. A tensão não reside apenas em disputas comerciais ou territoriais, mas na percepção de deslocamento estrutural de poder.
Entretanto, a analogia deve ser aplicada com cautela. Diferentemente da Grécia clássica, o sistema internacional atual é altamente interdependente, com cadeias produtivas globais, instituições multilaterais e armas nucleares que elevam drasticamente o custo e consequências de um conflito direto. Ainda assim, a lógica do medo estratégico permanece relevante. Quando uma potência dominante interpreta o crescimento de outra como ameaça existencial, aumenta a probabilidade de contenção, rivalidade sistêmica e crises recorrentes, como observado nas disputas tecnológicas, na questão de Taiwan e na militarização do Mar do Sul da China (artigo aqui no blog!).
A lição mais profunda da Guerra do Peloponeso talvez não seja a inevitabilidade da guerra, mas o risco de decisões guiadas pelo temor e pela desconfiança sistêmica. Atenas e Esparta não foram destruídas apenas por seus rivais, mas pelo desgaste interno que o conflito prolongado provocou. Da mesma forma, no século XXI, uma competição estratégica descontrolada pode gerar custos globais que ultrapassam os ganhos de poder relativo.
Do ponto de vista teórico, a “Armadilha de Tucídides” dialoga diretamente com o Realismo nas Relações Internacionais. No mesmo cenário, em um sistema anárquico, a segurança depende da capacidade própria de cada potência. Sendo assim, o crescimento de um ator altera o equilíbrio de poder e ativa o chamado “dilema de segurança”: medidas defensivas adotadas por um Estado são interpretadas como ofensivas por outro; essa dinâmica gera ciclos de desconfiança, reação e instabilidade.
Assim, o aumento da capacidade militar chinesa pode ser visto por Pequim como defesa legítima de seus interesses, mas por Washington como ameaça expansionista. Esse mecanismo de ação e reação foi central na Guerra do Peloponeso e continua operando na política internacional contemporânea. O desafio atual consiste em administrar essa transição sem repetir a trajetória trágica da Grécia antiga, onde o medo, mais do que a ambição, foi o verdadeiro catalisador da guerra. A diferença crucial é que, hoje, o custo de um erro de cálculo é exponencialmente maior.
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