Qual o futuro das guerras

Diante das tensões entre Estados Unidos e Irã, cresce o debate sobre os riscos de uma escalada militar com repercussões globais. A partir dos três níveis de análise de Kenneth Waltz — individual, estatal e sistêmico — o artigo examina as motivações políticas, estratégicas e estruturais por trás do conflito. Com apoio das perspectivas realistas de Hans Morgenthau, a análise discute como disputas de poder, segurança e equilíbrio internacional moldam o atual cenário geopolítico e levantam questionamentos sobre a estabilidade da ordem mundial contemporânea.

3/5/20264 min ler

six fighter jets
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Os Três Níveis de Análise

Com o atual momento internacional, sobretudo nas Relações Internacionais, surgem debates sobre uma possível escalada do atual conflito entre os EUA e Irã e a ideia de uma 3ª Guerra Mundial, diante disso, é necessário refletir sobre o que efetivamente desencadearia a escalada do conflito à fomentação do possível início de uma 3ª Guerra Mundial. Para isso, trago os 3 níveis de análise de Kenneth Waltz.

Fragmentados em 3 níveis de análise, Kenneth Waltz busca compreender as origens da guerra, a fim de observar se o futuro é mais possível de paz ou de guerra. Cada nível de análise é mais intenso que o outro, sendo da seguinte maneira: nível individual, estatal e internacional. O nível individual disserta sobre tudo aquilo que causa impacto em cada sujeito (relevante o suficiente para a política de um Estado, como o presidente de certo país), podendo ser de maneira emocional, perceptiva, em suas escolhas ou também atividades. Em contrapartida, à nível estatal é tudo aquilo que abrange os interesses do Estado, economia, organizações políticas e forças militares. Por fim, à nível internacional está o sistema anárquico, o Direito Internacional, a balança de poder, organizações internacionais e valores universais.

Aplicando os 3 níveis de análise para o atual cenário, pode-se concluir que do nível de análise individual, as motivações para o atual conflito entre EUA e Irã são as motivações políticas por trás do posicionamento do atual presidente americano, Donald Trump, o qual se opõe à iniciativa do enriquecimento de urânio observado no Irã. A partir disso, foi ao primeiro nível de análise de Kenneth Waltz que foi possível observar uma das motivações para o atual conflito. Em adição, para o segundo nível de análise de Waltz, o nível estatal, também é possível alegar que houve interesses de Estados, bem como o interesse do Estado iraniano a se armar, além do interesse dos EUA em se proteger e projetar as forças militares a intervir, sem contar a relevância das Organizações Internacionais para esse conflito, especificamente a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Por último, a partir do olhar do último nível de análise do autor, é possível apontar a relevância do Direito Internacional para o conflito, uma vez que o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) foi debatido e colocado em questão sobre a legitimidade do enriquecimento de urânio do Irã.

Não menos importante, Rousseau disserta que, no Sistema Internacional, um ator somente tem garantia de segurança a partir do momento no qual ele tem ciência de que poderia derrotar seus inimigos. Desse modo, o enriquecimento de urânio por parte do Irã beneficiaria-o, mas poderia colocar os EUA (e aliados) em uma posição de vulnerabilidade, já que o Irã é aliado da China, outro Estado que tem desafiado as noções de segurança e estabilidade do Estado americano. Essa ideia corresponde ao Sistema Anárquico, onde não há um único ator com o monopólio legítimo da força, até o momento. Entretanto, esse sistema compõe o sistema internacional, o qual detém a balança de poder, e, para essa funcionar, os atores internacionais hão de realizar guerras preventivas em nome do equilíbrio, o qual funciona quando mantém as insatisfações abaixo do nível em que a parte prejudicada tenta derrubar a ordem internacional. Assim, mantendo este como uma disputa de poder entre os atores do mesmo.

Outro tópico relevante para esse tópico são as disputas de poder. Para isto, utilizarei as lentes de Hans Morgenthau, que aponta as relações internacionais estabelecidas em disputas de poder entre Estados em um ambiente essencialmente anárquico. Como cada unidade soberana busca satisfazer seu interesse nacional e não há uma entidade que detenha o monopólio legítimo da força, como Estado mundial capaz de instaurar a paz e a ordem entre Estados, permanece a guerra de todos contra todos, sendo semelhante ao estado de natureza hobbesiano. Os Estados se encontram frequentemente investindo em armamento e segurança ou com envolvimento direto em conflitos. Por isso a guerra é o principal elemento da política internacional, no ponto de vista realista. Portanto, de acordo com Morgenthau, e essencialmente de acordo com o realismo clássico, poder é a capacidade do uso da força na relação com outros Estados e, por isso, alguns têm mais que outros. Ou seja, a ação do Estado iraniado juntamente com a reação do governo americano mostra como a política dança no Sistema Internacional e como as reações dos Estados ultrapassam as fronteiras da ideologia política e se concentram na política real, ou a “Realpolitik”.

Dessa forma, torna-se improvável assegurar efetivamente quais serão os próximos eventos das Relações Internacionais, mas sim que o Sistema Internacional é movimentado pela política e pela vontade dos Estados de preservarem poder, capacidades econômicas e formas de garantir sua segurança. Além do mais, faz-se necessário acatar que, desde o fim da 2ª Guerra Mundial, esse é o período mais pacífico que o mundo encontra-se, isto é, sem guerras e comoções bélicas mundiais. Esse período, conhecido como a pax americana, coloca os atores internacionais em certa estabilidade jamais vista e desafia os conceitos do sistema anárquico na disputa de poder, em soma, Organismos internacionais, recursos diplomáticos, multilateralismo comercial e soluções conjuntas ajudaram a manter o sistema de equilíbrio que conhecemos. Entretanto, a manutenção do equilíbrio internacional se faz necessário, e quando interesses nacionais sobressaem os interesses coletivos, a cooperação entre os Estados torna-se inflamada e os interesses coletivos passam a divergirem-se.

Não obstante, é possível afirmar que os próximos conflitos serão incentivados a partir de disputas territoriais, busca de maior arsenal bélico para defesa e segurança, além da carência de cooperação entre os países. Necessariamente é seguro afirmar que uma mudança na ordem mundial vigente está ocorrendo.

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